não tenho o que dizer
não o faço por amor ou lazer
*
essa é a primeira mentira de todas
sempre há o que ser feito
e, mesmo assim, nada pode ser desfeito
pois o efeito é lancinante
*
mais alucinante e, mesmo assim, nada o ameniza
me conduz por cada instante
paralisa, controla, ameniza
num intenso vai-e-volta inebriante
*
são frases, devaneios, pensamentos
ou tolas sentenças
proferidas por uma boca torta
ou recortadas direto
de uma antiga rima morta
*
portas se fecham
ao se abrirem sorrisos
novos olhares e desafios
desafino em desatinos
por desconhecer outro caminho
*
minha fuga é a saída
no escapismo estaria a redenção
de tão doce ilusão
dentro uma morada interior
resgato de dentro de mim
a mônada da vida superior
*
nada disso é fácil
não era esse o tema original
pelo qual escrevia
sofria, vivia, chorava ou sorria
*
não sei rimar, não consigo mais amar
nada mais há a encarar
é inevitavel aceitar
*
apenas a mais indecifrável
de todas as verdades
antes que seja tarde
a vida dói, o mundo arde
nada disso é em vão
*
minha missão se revelou
de forma deformada e velada
velando o sono dos insones
loucos, ébrios e desvairados
varando dias e noites
na busca pela via errada
*
minha criação enfim se eterniza
com o todo me harmonizo
sinto, penso, respiro, surto
não me furto ao direito de pensar em silêncio
enquanto minha alma escreve e descreve
*
possessa, processa, confessa
proferindo e parindo pensamentos longínquos
partindo sem destino da lua até marte
trânsitos oblíquos de tão vã e marginal arte
(rodrigo cruz)
e o Céu numa flor silvestre.
Ter o infinito na palma da sua mão
e a eternidade numa hora"
" To see a world in a grain of sand
And a Heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour ".
(Willian Blake)