terça-feira, 1 de setembro de 2009

simbolos de libertação (máximas media-malistas)

A) constata-ações

eis que
surpreendo
surgem subitamente
seres sinistros
selvagens simbolos sem silos
duplos deletérios
deveria deitar
dentro
de duas deusas
devassas diáfanas
*
lindas lendas
lânguidas
lindas, lépidas
les linces
loiras lunáticas?

*
sim
sincero sou
sombrio
senhor
sem senso
*
luto longo
lento
largo
literalmente

ladeira longe
*
dentro de deus
do diabo
deuses
dedo
de
dédalo
dupla desgraça
dramática
drinque
dose dupla
de darma



II - reflexão torta

não sou um velho
não sou um velho bêbado
não sou um velho bêbado e pobre
não sou um
velho-bêbado-pobre-arrogante-chato-pra-caralho-falastrão-inconveniente-teimoso
e todo o resto que vocês sabem e sempre souberam de mim
não sou nada disso
sou um nada
simplesmente
sou um
sou



3 -dúvida?!
a resposta para
todas as perguntas da vida
não está escrita
nem o professor saberia
não adianta consultar o google
ninguém sabe o resultado se não arriscar
na vida real não tem reset nem save game

(todos são de minha autoria)


bom final de semana
paz e luz


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

dose dupla

olá pessoas!

espero de verdade que os poucos (porém valiosos e estimados) que por aqui passam estejam bem.

gostaria de anunciar a nova onda do momento aqui neste blogue: trata-se da postagem "dose dupla".

antes que perguntem como funciona essa maravilha literária, já me antecipo e informo que não é uma egotrip pretensiosa.

é um esquema bem simples, eu publico um poema meu, seguido de outro de um autor renomado que eu ache interessante e estabeleça algum tipo de diálogo com o poema original.

espero que gostem da idéia e, mais que isso, caso se sintam estimulados a participar, me mandem suas sugestões (nesse mesmo molde) para que eu as publique quando for oportuno.

aproveito também para perguntar quem aqui poderia me ajudar com as licenças creative commons, já andei atrás de ajuda, mas até agora nada!

ps: então, sem mais delongas, vamos ao que interessa:


A:
tic-tac, tic-tac

meu choro mais sentido

o lamento mais sofrido
ninguém consegue entender
será mesmo impossível perceber?

e ver como não há mais
motivos pra chorar

ao mesmo tempo
entender porque

lágrimas vertidas

acabam
vistas
como vertigens

a verdade é uma só
sinto muito e lamento
acho triste demais
presumo como ninguém mais
se mostra capaz
de sofrer pelo outro

não encontro exemplos concretos
para sentir, calcular, estipular
muito menos mensurar

o teor da dor alheia


ainda mais no meu caso
tortura
essa
que se torna eterna

não cessa e perdura
é uma espéce de bomba

na verdade só se desarma

quando me armo de papel e caneta
(rodrigo cruz)



B:
Dá-nos a Tua paz
(Álvaro de Campos)

Dá-nos a Tua paz,
Deus Cristão falso, mas consolador, porque todos
Nascem para a emoção rezada a ti;
Deus anti-científico mas que a nossa mãe ensina;
Deus absurdo da verdade absurda, mas que tem a verdade das lágrimas
Nas horas de fraqueza em que sentimos que passamos
Como o fumo e a nuvem, mas a emoção não o quer,
Como o rasto na terra, mas a alma é sensível…

Dá-nos a Tua paz, ainda que não existisses nunca,
A Tua paz no mundo que julgas Teu,
A Tua paz impossível tão possível à Terra,
À grande mãe pagã, cristã em nós a esta hora
E que deve ser humana em tudo quanto é humano em nós.

Dá-nos a paz como uma brisa saindo
Ou a chuva para a qual há preces nas províncias,
E chove por leis naturais tranquilizadoramente.

Dá-nos a paz, porque por ela siga, e regresse
O nosso espírito cansado ao quarto de arrumações e coser
Onde ao canto está o berço inútil, mas não a mãe que embala,
Onde na cómoda velha está a roupa da infância, despida
Com o poder iludir a vida com o sonho…

Dá-nos a tua paz.
O mundo é incerto e confuso,
O pensamento não chega a parte nenhuma da Terra,
O braço não alcança mais do que a mão pode conter,
O olhar não atravessa os muros da sombra,
O coração não sabe desejar o que deseja
A vida erra constantemente o caminho para a Vida.
Dá-nos, Senhor, a paz, Cristo ou Buda que sejas,
Dá-nos a paz e admite
Nos vales esquecidos dos pastores ignotos
Nos píncaros de gelo dos eremitas perdidos,
Nas ruas transversais dos bairros afastados das cidades,
A paz que é dos que não conhecem e esquecem sem querer.

Materna paz que adormeça a terra,
Dormente à lareira sem filosofias,
Memória dos contos de fadas sem a vida lá fora,
A canção do berço revivida através do menino sem futuro,
O calor, a ama, o menino,
O menino que se vai deitar
E o sentido inútil da vida,
O coveiro antigo das coisas,
A dor sem fundo da terra, dos homens, dos destinos
Do mundo…


(Fernando Pessoa in: "Poesia de Álvaro de Campos")




"Nada há para ser conquistado, apenas ignorância por ser removida."
Ramana Maharshi

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

mais máximas minimalistas (volume 3)

sem nome:

diz-me com quem andas
que dir-te-ei porque se escondes

re-visão:

das sombras ao pó

as dúvidas contumazes são
as mazelas necessárias
para a maturidade
permitindo ao espírito

superar a derrota
suportando então
todas as formas de decepção

alcançando assim
a redenção

apenas por um motivo:

risco letras por nada

sinto falta do que nunca vivi
ávido por novidades
sigo em um duelo com o desconhecido

procuro, encaro, enfrento
desafios / conquistas / derrotas / amores
companheiros de jornada
mas bem sei que
no fundo, afinal
o final
é sempre assim
esgrimindo sozinho
(eu e minha mente)
esta história
se dá por encerrada

(in) justiça social:

ao flanar por uma rua estreita
avisto um mendigo, caminhando trôpego em sentido oposto
o mendigo me encara com suas roupas puídas e mal ajambradas
mas eu, confuso, com meu tenis de grife, casaco importado e perfume francês
rapidamente desvio o olhar
assim nos cruzamos e seguimos nossos caminhos
após esse curto incidente, me pergunto:
qual alma estaria mais limpa?



ciclos (anti)naturais:

sou eminentemente noturno

e preciso do sol
mas não reflito nada

o ar rarefeito rareia
enquanto rateio o tempo
a vida por mim passeia


categorias líricas de sacrifício:

para uns, escrever é um dilema

outros declamam com lânguida emoção
há sempre os esmerados catedráticos
destrinchando cada linha e verso
para mim é isso tudo e muito mais
há algo além que é deveras complexo
tem o seu quê de ritual, exorcismo, dor
meu sagrado ofício

rebelião:
nada tenho a acrescentar
não saberia pelo que lutar
nesse mundo conturbado
não há maior revolução explodindo
do que aquela eclodindo
aqui dentro de mim


a-identidade: (v-beta)

uns me olham com ironia
me ofendem
achando graça
já outros fazem troça
não sou boleiro, playboy
neo-hippie ou maloqueiro

quem sabe rimador ou ator?
é difícil saber

talvez pela timidez inata
deste ser atormentado

instigado por estímulos
imediatos, instantâneos
que pautam meus
atos, relatos e contatos

com o mundo
com os outros
com a vida

contigo
há alguma dúvida?
você duvida?

" Não podes ver o que és.
O que vês é a tua sombra."

(Rabindranath Tagore)

sábado, 22 de agosto de 2009

rimar é preciso

errar é preciso
navegar também
por isso eu rimo

na vida
os efeitos daquilo que é feito

são sempre irreversíveis

versos inevitáveis

desfechos de trechos
emotivos
vórtices de lembranças fugidias


assim resgato tudo ao escrever
descrevo
sofrimentos,
relato perdas, derrotas
,
alegrias, prazeres,
lágrimas e vitórias

são fotografias gravadas no meu cérebro
passando, circulando por entre nervos e retina
através da arte posso atingir
tingindo a forma que se imagina

nada mais tenho a pensar, não consigo sentir nada

e mesmo assim minha mão não se furta
a escrever, uma linha extensa, frase curta

seria compulsão, desespero, delírio ou paixão?
ainda não consegui explicar com clareza
que haja outra forma tão pura de expressão

capaz de me curar com tamanha presteza
das desventuras do amor, tristeza e perdão

meus dias nada tem de colorido

são mais sofridos, me castigam
com doses torturantes

os sete corpos do espírito
mortalmente feridos
e meu corpo maculado

prontamente anunciam
que nada será como antes


não é choro de perdedor ou tampouco desculpa esfarrapada
queria ser diferente, melhor, mais humano e mais nada
um emprego bacana, um amor eterno e sacana

aquele canto para chamar de meu, pequeno casebre

tudo que sonegue tanta dor, me sossegue por onde for

a real disso tudo é: não existe vitória fácil

tive a chance de ouro e a perdi, pois fui tolo
difícil lidar com isso, com a dor conviver
nada mais se mostra eficaz
é preciso, porém, sofrendo ou não
recuperar meu eu,
esteja onde estiver
fazendo o que for

nos seus braços enlaçados,

em beijos ardentes ou na troca de anéis
ao sabor das ondas, recupero a fé no bem

por isso creio que
navegar é preciso

e rimar também


rodrigo cruz

o tema é o título

não sei do que falar
nem tenho mais pelo que chorar
meu amor próprio é nulo
me confundo, me atiro fundo
o tempo todo
perdi lá, bem dentro em mim
meu maior tesouro

e sem sentir, sinto o vento passear
passando ao longo do meus corpos astrais
estremeço, faço tudo errado
trapaceio no momento inoportuno
brado quando devo calar
rio alto na hora de silenciar

me assusto como um gatuno desavisado
roubando, escondendo, aquilo que não é válido
escamoteando as respostas postas na mesa
sem a menor destreza
ginga ou malemolência

a inocência se esvaiu, a dor a superou
espero me retratar
com a caneta poder confessar
mudar as emoções de lugar
e assim me reinventar

ao ciclo da vida integrar
como um cone ou espiral
há algo em mim que cresce
continuamente até alcançar o alto

estou farto de mim mesmo
dos meus defeitos, de tanta covardia
da inveja, da raiva contida
e tanta falta de ousadia

mas não me restou outra saída
senão viver com coragem, valentia e sorte
amanhã estarei pior, depois melhor,
mais capaz, fraco ou forte
e assim, só por teimosia,
vivo desafiando a morte