terça-feira, 9 de novembro de 2010

! Paradeiro !

"não só quem
nos odeia ou nos
inveja nos limita
e oprime;
quem nos ama
não menos
nos limita"
(Fernando Pessoa)



beiro, tropeço
trôpego no bueiro...
me esgueiro,
com receio
verdadeiro.

boto para fora a dor,
esqueço meu complexo
de patinho feio...
e faço ouvidos moucos!

ignoro os riscos,
desconsidero:

avisos roucos!
dicas fúteis
ou conselhos seguros,
opiniões prudentes,
(nada me segura)!

de nada fazem sentido
numa,
na minha mente:
(demente?)
feliz, esperançosa, contente...

"tudo culpa dela!"

do amor,
da dor,

de não tê-la (...)


(rodrigo cruz - 09/11/10)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

por mais a mais (ruptura confessional)

introdução:
"quem me guia são meus guias. pelos meus santos, orixás e demais forças da natureza sou guiado e por todos abençoado!"



mesmo o mais forte santo
em algum momento acaba em pranto
portanto, por tanto e por tudo
aquilo que não lhe disse
por realmente esperar que você partisse

por mais a mais
de tudo o que for capaz
ou por todo o sentido insensível
do que intuía há tempos atrás,
mesmo incapaz de traduzir o indecifrável do nada

assim prossigo e carrego a espada embainhada
e, ao longo dessa vã jornada uns me veem,
apontam, criticam, condenam, com veemência
me consideram um condenado, fracassado,
pobre coitado com o ego inflado
com sorte, talvez um poeta pressentindo a demência cotidiana
mesclada à doença dessa tal pseudo-sapiência humana

não espero que isso lhe convença
afinal, na maior parte do tempo sou ingrato
desarranjo o arranjo cósmico orquestrado
lado a lado, se mostrando mais e mais patético
aliado ao suposto consentimento do cético

aquele ser sempre trôpego, do tipo que se desequilibra
amparado pela rigidez dogmática da ciência
mas, contraditoriamente, a este cenário futuro
no presente escrevo, contesto e lhes presenteio

escravo das palavras e teclas, transbordo
emoções, desejos ou sonhos pelas bordas dos poros
fundindo-os e me confundindo com o que sou

assim, no fundo, é (ou acaba sendo)
bem mais do que isso,
o tudo-e-o-nada se resumem a:
de onde vim, por que permaneci e para onde vou?

e quem disse que vou?
melhor ficar na dúvida e por mais, ter algo a mais
ainda há mais a fazer, muito pelo que morrer
e somente assim ter como me redimir, voltar a sorrir

devo me fortalecer em novas lutas,
ou então conseguir a benção da lua
para então voltar a mim,
por mais coração ou menos razão a mais
tanto faz, desde que haja algo demais
que devolva a minha paz
(rodrigo cruz - 05/10/10)



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quarta-feira, 30 de junho de 2010

confissões 2 e 3


num átimo de segundo

meu íntimo

me intima à mudança

desafio o destino
desafino e desatino
seria burrice
se o meu pensamento já não estivesse lá

onde?
sei lá, é difícil julgar

a si, aos outros, o passado, o futuro
nesse diálogo, cada um sabe o seu caminho

o meu está, porém nunca será sozinho
*


sou capaz de indecifrar o oculto
 
e no mesmo segundo me perder
preciso esquecer meus erros
seria melhor me demover
dessa idéia tola

de entender tudo
remover todas as propostas
firmadas sem coração
ou acordo adequado
é chegada a hora
de
abandonar
acertos estabelecidos

assumir os fracassos
admitir os meus vícios
reconhecer minha inaptidão
e seguir errando
muito mais
como há muito tempo atrás
mas isso passa
passarinhemos pois
em busca das belas ilusões
ou de todos os delírios inconfessáveis
já que é
assim,
me dá a minha
dose diária
dessa loucura

chamada
realidade


paz, amor, e revolução
tempos difíceis nos aguardam

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

confissões (parte 1)


carrego todos os pensamentos perdidos
mais aqueles sentimentos contidos
ou os livros que nunca li
nada disso desaparece de mim

ainda que sumam coisas
sejam elas
objetos valiosos
desejos cobiçosos
sentimentos trevosos
ou impulsos odiosos

isso tudo nada é
senão o reflexo de mim
aquilo do qual sou, fui e serei
feito e desfeito
mas nada me pertence
senão o universo
em versos diversos

talvez por isso não consiga
falar de amor sem melancolia
em um dado momento
ou à completa revelia
da maneira como
desejo-penso-sinto

minto tão bem, por isso me confundo
lá bem no fundo jaz a esperança
onde uma chama arde
indicando sem alarde
que ainda não está tão tarde

o sofrimento era feito companhia
avizinhando-se ao papel e caneta
até que algo em mim mudou
o conflito cessou

não me surpreendo mais
com a capacidade de renovar
que o mundo nos dá

apenas vivo, e isso é tanto
pois tanto mais há
pelo que sonhar
que acabo não sabendo sobre
nem de qual modo
poderia falar
sem hesitar, fraquejar ou falhar

era esse vazio que incomodava
cuja companhia me angustiava
mas me mantinha atado à vida
flutuando, meio confuso
muitas vezes à deriva

nele está a sua força bruta
caótica, confusa e abrupta
talvez por isso seja tão

complicado
difícil
intrincado

escrever
definir
explicar
como
(e como!)
sente e arde
esse meu louco coração
quando ama

quando o proclama
na cama
se esparrama
sorrindo de alívio
em cio completo
inquieto, arfante

confessando
desejos tórridos
quase sordidos
de estar e ter
em e com
dentro e fora

todas essas palavras são vazias
verbos-pronomes-preposições
só passam a ter valor
na deliciosa rima de corpos
quando a conclusão
dessa métrica
assimétrica
termina harmônica
no eu e você

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

apenas uma prosa

dessa vez vou fazer diferente. não vou submeter minhas idéias ao labor intenso da concentração racional, ou tentar enquadrá-las em algum estilo definido ou formato vigente, do mesmo modo que me habituei a fazer com aquilo que produzo, ou melhor, crio. falo em criação, pois acredito haver uma potencialidade fática (e fantástica) contida nesse processo.

pretendo dar vazão ao vazio que de mim transborda, transpira pelos meus corpos físicos e astrais. não ligo para os céticos, afinal eles também não ligam para as minhas crenças e assim tudo prossegue numa relax, numa tranquila, numa boa.

não tenho mais medo de parecer um imenso clichê, pois tudo se repete e remete a uma prolixa exaustão, para depois ser (re)inventado por um outro eu, tu, nós, vós ou eles. então para que ter ciúme de uma idéia, de uma crença, de um desejo ou um sentimento?

não sei de nada, e nem quero saber. já tive raiva de quem sabia, mas a raiva maior é aquela que dorme no meu peito, decorrente da minha covardia, pela falta de ousadia e de originalidade. sou insosso, grosso, preguiçoso, comum, tão pernóstico e repetitivo que me canso constantemente dessa natureza viva daqual sou composto.

apesar de escrever compulsiva e impulsivamente neste instante, mesmo que de maneira caótica, catártica, egóica e confusa, devo confessar: me preocupo com a possibilidade de alguém compreender a proposta original destes escritos. não é fácil para mim fazer esse tipo de revelação, me sinto desarmado e vulnerável ao fazê-lo.

preciso silenciar a mente, me concentrar naquilo que supostamente é importante, mas não consigo definir a intensidade dessa escala de valores significativos. por isso ando sempre atrasado, não tenho pressa para certas coisas, mas o tempo me aprisiona pois tento dobrá-lo e no final sempre saio derrotado. apesar disso, não desisto de tentar vencê-lo, sou teimoso, chato e persistente, mas normalmente o que me motiva são impulsos banais, ou assim parecem para a maioria dos mortais.

talvez seja por isso que parte de mim questiona, talvez seja o superego (qual a necessidade de tantos rótulos e classificações, mesmo não gostando delas?), mas o fato é que esse algo aí me diz:

"por que vc pensa tanto, tem muita gente morrendo de tiro, fome, frio, lepra, pneumonia, leucemia, cirrose, facada, asfixia, desgosto e até de felicidade, pra você ficar se achando tão especial com esses pensamentos banais sobre o sentido da vida, o que nós somos e para onde podemos ir, o que fazer com os seus dons, talentos e como ser uma pessoa melhor. só de imaginar isso, dá pra ver o quão idiota, pretensioso e fraco você é!"

e a tal voz não para nessa consideração, ela continua com o seu ar inquisidor, sem me dar qualquer tempo para respirar ou sequer refletir:

"no fundo o que pretende é encontrar um bálsamo para a sua vidinha medíocre, mais um paliativo para você que nunca aprendeu a sofrer, tem medinho de sangue, se esconde dentro de si mesmo, de telas de computador, páginas de livros, melodias quebradas e notas musicais dissonantes, maços de cigarro amassados, canecas e canecas de café frio e copos de cerveja quentes. no fundo você quer o perdão e se acha melhor que os outros, porque seria? és mais belo, inteligente ou digno do que algum dos demais seres?"

depois desse massacre emocional, sou levado a concordar, e desabafo: "sim, eu me acho melhor do que os outros, fui levado a isso como uma alternativa, ou pensava isso ou morria. aliás, cansei de me sentir morto, cansei de andar rastejando como um pobre coitado, cuja maior benção seria ser grato por estar vivo e, por tal motivo, ao menos para mim a felicidade se mostra inatingível."

ao confessar isso, irrompe uma súbita vontade de gritar, implodindo de cólera e desgosto, me estilhaçando em sete mil pedaços, para então bradar aos quatro ventos: "NÃO! EU RECUSO A PERPETUAR ESSA HERANÇA NEFASTA!", e talvez eu tenha feito isso, ao menos nos meandros mais secretos da minha conturbada (e perturbada) mente.

percebendo meus esforços, a voz diz, na vã tentativa de silenciar os ecos da minha dor: "não adianta, eu vou continuar ao seu lado, sondando os seus pensamentos, desejos e emoções, mapeando suas fraquezas, amargando suas glórias e anulando suas virtudes, afinal, você deve tudo a mim, eu sempre sei qual será o seu próximo passo!"

"e talvez saiba de verdade" - concluo, dessa vez mais relaxado e desarmado de qualquer forma de resistência, seja ideológica, física ou emocional - "mas acontece que a palavra final é minha, sou eu o responsavel por puxar o gatilho, soltar o punhal, por escolher a pílula azul ou vermelha, exorcizar ou escravizar os meus demónios internos, puxar ou soltar as rédeas da minha vida, e essa condição ninguém mais será capaz de roubar de mim!"

nessa constatação, percebo como o tempo se esvai sem nenhuma resposta, apenas com a doce certeza de que essa batalha nunca acabará, porém a força da vitória se mostra ao longo de cada batalha, na singela beleza de cada passo dado, mesmo trôpego, vacilante e irregular. não voltei à estaca zero nem tampouco na linha de chegada, pois percebi como seguir o caminho é fácil, se perder nele também, mas sempre há uma luz dentro de si, que te leva de volta, e pode te conduzir ao pote de ouro, ao elixir da longa vida, ao valhalla, ao paraíso das fadas, ao frescor da relva, até a face oculta da lua ou ao vento que sopra e me leva para a última estrela depois do amanhecer, me transportando de volta à fonte universal, ao seio maternal do cosmos... ao tudo e ao nada!

assim, nessa toada, tudo recomeça, com meus sonhos, devaneios e dramas devidamente posicionados nos seus devidos lugares, na insignificância habitual da qual nunca deveriam ter saído. me recomponho, respiro fundo e abro os braços para encarar o mundo, com a esperança renovada dentro de mim, ao assumir o eterno retorno como circunstância natural, posso afirmar, com o pouco de certeza que ainda me resta: "que venha a tempestade!"
(rodrigo cruz)

paz, amor e luz